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quinta-feira, 21 de abril de 2011

DUAS GRANDES BATALHAS - por José Saramago

Sem democracia não pode haver direitos humanos, mas sem direitos humanos também não haverá democracia. Estamos numa situação em que se fala muito de democracia e nada de direitos humanos. Creio que essas são as duas grandes batalhas para este século. E se não nos lançarmos nelas, o século será um desastre.




O Globo, Rio de Janeiro, 10 de Maio de 2003

segunda-feira, 14 de março de 2011

PALESTRA PARA OS CALOUROS DA UNIPAMPA

Acabo de chegar da Escola XV de Novembro, onde proferi palestra aos novos alunos que estão ingressando na Unipampa - Campus São Gabriel.
Não sei se a platéia gostou, mas eu amei a experiência. Cada vez mais me convenço de que sou vocacionada para o magistério - mas com vocação ainda maior para as peleias do Ministério Público, fico onde estou, que as batalhas são muitas e urgentes.
Quando convidada, me solicitaram que abordasse um tema que envolvesse cidadania, ética...
No final de semana fiquei pensando e preparando o que levaria àquela juventude, recém ingressando em cursos tão ligados à temática ambiental.
Daí que decidi pelo tema, cujo post anterior já definia minhas idéias: ética ambiental.
Fui ao encontro daqueles jovens apreensiva com a novidade do tema (minhas palestras já preparadas são outras), mas não fui sozinha. Comigo levei Rubem Alves, Leonardo Boff, Fernando Pessoa e José Saramago. Levei também muita esperança na alma, e o coração repleto de sonhos.
Apresentei o vídeo "A história das coisas", e para não cansar os alunos que já haviam assistido outra palestra antes (jovens são sempre inquietos) só fiz referência aos vídeos da "Carta da Terra", indicando o blog para quem tivesse interesse em assistir.
No meu sonho, cada um daqueles jovens vai passar a ver o mundo com outros olhos.
Olhos mais solidários, mais justos, mais humanos.
É só um sonho? Talvez não.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(Fernando Pessoa, in Tabacaria)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A NECESSIDADE DE UM CONTEÚDO ÉTICO

Mais uma vez valho-me de Saramago para ilustrar meu blog:

O escritor, se é uma pessoa do seu tempo, supõe-se que conhece os problemas do seu tempo. E quais são esses problemas? Que não estamos num mundo bom, que está mal e que não serve. Mas atenção: não há que confundir o que eu peço com uma literatura moralista, uma literatura que diga às pessoas como devem comportar-se. Do que estou a falar é da necessidade de um conteúdo ético, que não se separa daquilo a que chamo um ponto de vista crítico.


“A los que mandan en este mundo no les importa la domocracia’, dice Saramago”, Perfil, San José de Costa Rica, 17 de Junho de 1998









sábado, 19 de junho de 2010

Adeus a José Saramago


Neste mesmo blog já postei alguns ditos de Saramago, por quem sempre nutri admiração imensa. Sua morrte me faz triste, pois perde-se um homem de grandes idéias, e coragem para dizê-las, e sempre de forma magnífica. Foi consagrado com o Prêmio Nobel de Literatura - único escritor de língua portuguesa a receber o título.
Em homenagem ao escritor, abaixo transcrevo seu discurso proferido no Palácio Real de Estocolmo, em 1988, ano em que se completava 50 anos da Declaração dos Direitos Humanos, daí porque o escritor lusitano foi tão enfático em suas palavras:

"Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.

Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.

Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.

Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto."

José Saramago

Estocolmo, 10 de Dezembro, 1998



Para conhecer um pouco mais do escritor, o seu blog:
http://caderno.josesaramago.org/

A seguir fotografias do escritor que encontrei no blog da Companhia das Letras - http://www.blogdacompanhia.com.br/.


Que alegria a minha a ver fotos de meu amado Jorge Amado junto de Saramago. E ainda Caetano, de quem gosto tanto.


José Saramago e Jorge Amado na casa de Caetano Veloso (ao fundo).



Acima e abaixo: Jorge Amado e José Saramago na Bahia. (Fotos por Zelia Gattai, Acervo de Casa de Jorge Amado)


Jorge Amado e José Saramago na casa de Calazans, em 1996. (Fundação Casa de Jorge Amado)



Zelia Gattai, Jorge Amado e José Saramago na casa de Caetano Veloso, em 1996. (Fundação Casa de Jorge Amado)



Caetano Veloso, José Saramago e Jorge Amado na casa do cantor, em 1996. (Fundação Casa de Jorge Amado)



Adeus Saramago.

domingo, 22 de novembro de 2009

Palavras - de José Saramago

Quem me conhece sabe o quanto sou fã de José Saramago, especialmente de suas idéias.
Esse texto, publicado no blog do autor (http://caderno.josesaramago.org/2008/11/06/palavras/), eu li há algum tempo e guardei no meu baú de tesouros.
Agora compartilho aqui no blog.



Palavras



Felizmente há palavras para tudo. Felizmente que existem algumas que não se esquecerão de recomendar que quem dá deve dar com as duas mãos para que em nenhuma delas fique o que a outras deveria pertencer. Assim como a bondade não tem por que se envergonhar de ser bondade, também a justiça não deverá esquecer-se de que é, acima de tudo, restituição, restituição de direitos. Todos eles, começando pelo direito elementar de viver dignamente. Se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade, a justiça e a bondade, daria o primeiro lugar à bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade. Porque a bondade, por si só, já dispensa a justiça e a caridade, porque a justiça justa já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça.